O The Game Awards não é apenas um evento. Não é apenas uma celebração. Não é apenas um palco para desenvolvedores brilharem. Hoje, ele é um produto multimilionário, uma vitrine global, um espetáculo altamente lucrativo sustentado por expectativas, hype e anúncios que movimentam cifras capazes de deixar até grandes estúdios desconfortáveis.
Uma recente reportagem do Kotaku expôs números que até então ficavam nos bastidores — valores que revelam muito sobre o rumo que o TGA tomou e sobre por que tanta gente questiona o verdadeiro papel do evento.
A seguir, você confere uma análise forte, direta e aprofundada sobre os custos reais, as polêmicas, os interesses econômicos e o impacto disso tudo na indústria dos videogames.
Os Valores Que Chocaram a Indústria: Quanto Vale 1 Minuto no TGA
Os números são, no mínimo, impressionantes — e, para muitos, absurdos:
- US$ 450 mil (aprox. R$ 2,45 milhões) por 60 segundos de trailer;
- Até US$ 1 milhão (aprox. R$ 5,46 milhões) por três minutos no ar.
Esses valores colocam o TGA no mesmo patamar de programas de TV de altíssima audiência e até de eventos esportivos internacionais. Mas por que um simples trailer custa tanto?
A resposta está na escala.
Em 2024, o The Game Awards alcançou 154 milhões de espectadores, superando os 118 milhões de 2023. São números que ultrapassam emissoras tradicionais e até alguns eventos esportivos. E essa audiência não vem apenas do YouTube e da Twitch — inclui plataformas chinesas como Bilibili e WeChat, além de redes como TikTok, X, Facebook, Instagram, entre outras.
É uma presença global, simultânea e com engajamento altíssimo.
O TGA se tornou, literalmente, o lugar onde o mundo dos games para para assistir. E visibilidade global custa caro.
A Crise de Identidade: O TGA Ainda é Uma Premiação ou Virou Só Publicidade?
Os críticos não surgiram do nada. Ano após ano, a percepção de que o TGA prioriza anúncios sobre celebração vem crescendo. E com os valores revelados, o debate ficou ainda mais intenso.
Entre as reclamações mais frequentes estão:
- Discursos esmagados por falta de tempo;
- Categorias anunciadas às pressas;
- Prêmios importantes quase ignorados;
- Transmissões dominadas por trailers — alguns, inclusive, patrocinados.
Para muitos jogadores, criadores e jornalistas, o The Game Awards parece mais um catálogo premium de anúncios do que um evento para premiar desenvolvedores.
A crítica central é simples:
como celebrar a arte dos videogames se o foco principal está em monetizar cada minuto?
Essa tensão ficou tão evidente que Geoff Keighley, criador e apresentador do TGA, precisou responder publicamente. Ele afirma que tudo é uma questão de equilíbrio, já que público e empresas esperam tanto prêmios quanto novidades.
Mas “equilíbrio” é uma palavra complicada quando um trailer de três minutos vale mais de cinco milhões de reais.
O Poder dos Anúncios: Por que o TGA Depende Tanto Deles
Existe um ciclo econômico quase perfeito por trás do The Game Awards — e ele explica a força dos anúncios:
- Grandes trailers atraem audiência massiva.
- Audiência alta eleva o valor dos anúncios.
- O dinheiro dos anúncios financia e expande o evento.
- O evento maior atrai mais jogos, mais empresas, mais hype.
- E o ciclo se repete.
Esse modelo transforma o TGA em algo mais parecido com um superbowl dos videogames do que com uma premiação tradicional.
E não há como negar: funciona.
Jogos independentes como Balatro, por exemplo, tiveram explosão de popularidade após aparecerem no evento. A exposição instantânea para mais de 100 milhões de pessoas muda a história de um jogo — e isso é um argumento poderoso para justificar os preços.
Mas ao mesmo tempo, essa dependência cria um problema inevitável:
quanto mais lucrativo o TGA se torna, menos espaço resta para o lado artístico.
Custos Ocultos: Participar da Premiação Também é Caro
A reportagem do Kotaku não trouxe apenas os valores dos anúncios — revelou também gastos que desenvolvedores enfrentam para estar no evento presencial.
Cada estúdio indicado recebe apenas dois ingressos gratuitos. O restante deve ser comprado.
O caso mais simbólico foi o da desenvolvedora francesa Sandfall, do jogo Clair Obscur: Expedition 33, que recebeu 12 indicações, o maior número da história do TGA. Para levar mais membros da equipe, o estúdio precisou comprar ingressos adicionais por cerca de US$ 300 (R$ 1.630) cada.
Isso mostra que nem mesmo os mais indicados recebem tratamento proporcional ao destaque que dão ao evento.
Para equipes pequenas, esse custo pode ser um obstáculo significativo. Para equipes grandes, é uma despesa inesperada. Em ambos os casos, reforça a percepção de que o TGA é um evento caro — não apenas para quem anuncia, mas também para quem concorre.
O TGA Cresce — Mas a Que Custo?
O The Game Awards se tornou maior que muitas premiações tradicionais do entretenimento. É o evento que une indústria, público e cultura digital em uma só noite. É onde os anúncios definem tendências, onde trailers viram fenômenos instantâneos e onde até jogos desconhecidos ganham notoriedade mundial.
Mas essa força tem consequências claras:
- A experiência dos desenvolvedores fica em segundo plano.
- A celebração artística perde espaço.
- A pressão por anúncios inéditos domina a narrativa.
- O evento se torna cada vez mais dependente do dinheiro das publishers.
E, ao mesmo tempo, o TGA se vê obrigado a entregar espetáculo acima de tudo para manter seu valor comercial.
É uma linha tênue. E Keighley sabe disso. Ele mesmo admitiu recentemente que manter o equilíbrio é difícil — e que nem sempre conseguem.
O Futuro: A Máquina Não Vai Parar
Com audiências cada vez maiores, empresas investindo milhões e um público global sedento por novidades, o The Game Awards dificilmente diminuirá o foco em anúncios. Pelo contrário: a tendência é que ele se torne ainda mais comercial, ainda mais grandioso — e ainda mais caro.
A pergunta que fica é:
quanto de “premiação” ainda vai restar quando tudo isso acontecer?
Será o TGA capaz de equilibrar homenagem e espetáculo?
Ou a força dos milhões vai engolir de vez o espírito da celebração?
A resposta virá nos próximos anos. Mas uma coisa é certa:
o The Game Awards se tornou um evento onde cada segundo tem preço — e um preço muito alto.
